Grafismo Infantil - Estágios do desenho segundo Lowenfeld e Luquet

Em nossa rotina na Educação Infantil trabalhar com desenhos não é novidade, alguma vez, com certeza já estudamos sobre isso. Porém é sempre importante voltarmos ao assunto para que possamos refletir se estamos ou não propiciando às crianças oportunidades de se expressarem e de criarem, respeitando-as em sua maneira específica de agir e pensar sobre o mundo.
O ato de desenhar não se trata apenas de um gesto mecânico ao acaso, cada movimento tem um significado simbólico, dessa forma o desenho infantil é alvo de vários estudos e de diversas áreas do conhecimento.
O desenho é para a criança um modo muito significativo e prazeroso de expressão e de representação e que transita entre o real e o imaginário. Desenhar e rabiscar são formas de comunicação e expressão desde os primórdios da humanidade, mas para a criança nem sempre o importante é atribuir significados aos seus rabiscos, pois quando descobre as propriedades do giz, do lápis e da tinta os explora e diverte-se com as novas descobertas, quando rabisca está desenvolvendo sua criatividade e ampliando sua capacidade de expressar-se. Com o passar do tempo, esses rabiscos e desenhos passam a ser feitos intencionalmente e a criança começa a usar o desenho para comunicar seus pensamentos, desejos, emoções, exteriorizar seus sentimentos e brincar com a realidade, seu desenho ganha simbologia e significação potencializando sua capacidade de criar. O primeiro desenho simbólico em sua maioria é o da figura humana.
Através do desenho as crianças brincam, experimentam ideias, emoções e pensamentos, representam o mundo a partir das relações que estabelecem com o outro e com o meio em que vivem.
As etapas e os estágios do desenho infantil definidos e estudados por Lowenfeld nos ajuda a compreender e observar o desenvolvimento da criança, embora ele mesmo afirma que não é fácil perceber a transição dessas etapas, além de não ocorrerem na mesma fase e da mesma maneira para todas as crianças.
Segundo ele, a primeira etapa é o " Estágio das Garatujas" que acontece por volta dos dois anos de idade. Nessa fase a criança rabisca sem intenção e sem controle de forma desordenada e que aos poucos vai percebendo seus movimentos e controlando e organizando mais seus traçados. Explora e experimenta os movimentos de seu corpo e o espaço.


Marcos - 4 anos
Estágio das Garatujas


Marcos - 4 anos
Estágio das Garatujas



A segunda etapa é o " Estágio Pré-Esquemático", inicia por volta dos quatro anos de idade até os sete aproximadamente. A criança adquire consciência da forma e começa a fazer tentativas de representar o real de maneira desordenada e desproporcional.


André Luiz - 4 anos
Estágio Pré-Esquemático


Alexia - 4 anos
Estágio Pré-Esquemático



A terceira etapa é o " Estágio Esquemático" e em sua maioria inicia-se aos sete anos e pode ir até os nove anos de idade. Nele a criança já desenvolveu o conceito de forma e seus desenhos são representativos, descritivos e organizados. É possível percebê-los dispostos em linha reta.


Alexia- 4 anos
Estágio Esquemático

Catherine - 4 anos
Estágio Esquemático

O " Estágio do Realismo", quarta e última etapa, inicia aos nove anos e se estende até os doze. Nele o desenho tem maior representação com o real embora ainda exista bastante simbologia. A autocrítica em seus desenho é bem maior.
Luquet foi um dos primeiros a estudar o grafismo infantil, para ele o desenho é a representação do modelo interno do objeto que a criança vê. Ele dividiu o desenho em quatro etapas.
A primeira denominou de " Realismo Fortuito" que se incia por volta dos dois anos de idade e se divide em duas fases: desenho involuntário e desenho voluntário. No primeiro a criança desenha linhas sem intenção ou significado, o faz pelo prazer do movimento e do que vê no papel. No segundo, a criança desenha sem intenção, mas enxerga em seus traçados semelhanças com objetos conhecidos, depois surge a intenção de desenhar mas a interpretação dos seus desenhos podem variar.

Miguel - 2 anos
Realismo Fortuito involuntário

Miguel - 2 anos e sete meses
Realismo Fortuito voluntário
"Vou desenhar uma minhoca e uma pedra"

A segunda etapa é chamada de " Realismo Falhado" ou " Incapacidade Sintética". Nela a criança desenha objetos sem ter relação entre eles, ou seja, os desenhos são independentes. Ela pode exagerar ou omitir partes. Essa falta de coordenação é percebida também em suas ações e pensamentos. Esse estágio começa por volta dos quatro anos e pode ir até os dez ou doze anos.



Bianca- 4 anos
Realismo Falhado

Felipe- 4 anos
Realismo Falhado
Exagero no desenho

Camily- 4 anos
Realismo Falhado
Omissão de partes no desenho

A terceira etapa é chamada de "Realismo Intelectual", e quando a criança representa objetos pelo seu conhecimento intelectual, ela reproduz objetos que vê e também os que estão ausentes. Dá transparência à alguns objetos desenhando o que está dentro do corpo ou de uma casa, por exemplo. Usam legendas e nessa etapa também conseguem representar distâncias, profundidade e posições organizando os objetos no espaço usando uma base de referência.


Maria Eduarda- 5 anos
Realismo Intelectual


Camilly- 4 anos
Realismo Intelectual
Transparência no desenho


Fabio- 5 anos
Realismo Intelectual

A quarta etapa é o " Realismo Visual" , nela a criança desenha e representa o que vê.
Vários pesquisadores estudaram, classificaram e analisaram o desenho infantil, entretanto não diferenciaram muito de Luquet e Lowenfeld, as fases e os estágios definidos não devem ser vistos de maneira rígida, devemos levar em conta as especificidades de cada criança e suas experiências vividas. Essas definições do desenho servem para que possamos compreendê-las e entender seu desenvolvimento, ou seja, esses estudos nos mostram que as crianças têm sua maneira própria de se expressar, de pensar, de registrar seus desejos, emoções, pensamentos. Cabe a nós educadores portanto, entendê-las e respeitá-las propiciando a elas oportunidades de expressão, criação e experimentação.


Referência Bibliográfica


LOWENFELD, V.; BRITAIN, W. L. Desenvolvimento da Capacidade Criadora. São Paulo: Mestre Jou. 1977.

LUQUET, G. H. O Desenho Infantil. Porto: Editora do Minho, 1969.

PERONDI, D. Processo de alfabetização e desenvolvimento do grafismo infantil. Caxias do Sul: EDUCS, 2001

MOGNOL, L. T.; PILLOTO, S. S. D.; SILVA, M. K.,Grafismo Infantil: linguagem do desenho. UNIVILLE. 2004

Comentários

  1. Didática, clara, bem organizada. Em minhas pesquisas foi a melhor que encontrei.

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  2. Obrigada a todos. Estamos felizes pelo texto tê-los ajudado.

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  3. Muito bom, é sempre um prazer saber sobres as crianças e principalmente proporciona-las a liberdade de se expressar.

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  4. GOSTEI MUITO DO TEXTO, VAI AJUDAR BASTANTE...

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  5. Muito bom. Há dicas como ajudar uma criança de 4 anos a evoluir na esquematização do desenho, a evoluir do estágio de realismo fortuito voluntário para realismo falhado?

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    1. O importante é que a criança possa usar o desenho para se expressar livremente, e isso o professor tem que ter clareza, os estágios nos ajudam a compreender seus traços. Dessa forma o professor deve oferecer vários suportes, materiais, espaços e maneiras diferentes para que ela possa desenhar o quanto e o como ela quiser. ;)

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    2. Excelente matéria!No final do ano letivo, o professor que mensalmente separa um desenho do aluno tem a satisfação de analisar a evolução do grafismo.

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  7. Muito bom. Há dicas como ajudar uma criança de 4 anos a evoluir na esquematização do desenho, a evoluir do estágio de realismo fortuito voluntário para realismo falhado?

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  8. Adorei a matéria. Assunto de grande relevância. Divulguei em minha página https://www.facebook.com/psicologa.poa.terapia/ com os devidos créditos. Aproveito para deixar o convite para a visita e dizer da alegria em encontrar espaços como esse. Abraço

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  9. Adorei a matéria. Assunto de grande relevância no contexto da infância. Permitam-me o compartilhamento na minha página https://www.facebook.com/psicologa.poa.terapia/, com os devidos créditos. Deixo o convite para uma visita e fico grata por encontrar espaços assim. Abraço

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    1. Pode compartilhar sim e logo faremos uma visita ao seu espaço também. Abraços ;)

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  10. Respostas
    1. Margarida de Sousa Barbosa e Janaina Maria Vicente da Silva

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  11. Milagre julio prudencio maungue22 de março de 2017 10:35

    adorei de mais esta materia, uma materia rica de conhecimentos.

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  12. até que enfim encontrei a melhor explicação.. vai ajudar os meus rapazes

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  13. adorei a matéria assunto do meu TCC.

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  14. Bom dia! Minha filha tem Síndrome de Down. Já desenhava a figura humana, realismo falhado, agora creio que regrediu, voltou a fazer riscos, linhas continuas. Como posso ajudá -la?

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    1. Olá

      Acredito que é preciso esclarecer primeiro o que significam essas etapas. Na verdade elas são maneiras de conhecer os desenhos das crianças, existem outros pesquisadores que usam outros jeitos de olhar os desenhos. Dessa forma, as etapas nesta postagem descritas, não são lineares, ou seja, as crianças não passam de uma fase para outra, elas intercalam, vão e voltam, entre as fases descritas. Isso quer dizer que sua filha não regrediu, ela está experimentando, testando, usando os desenhos para se expressar. Ela pode desenhar figuras humanas e em outro desenho garatujar, pois ela está em processo. Você pode e deve incentivar-la deixando ela desenhar em diferentes papéis, ou com diferentes "riscantes" lápis, giz, canetinhas, tintas, carvão, etc e dar a ela diferentes possibilidades e experiências, como desenhar de pé, sentada, colocando o papel no chão, ou riscando próprio chão com o giz, desenhando na parede...enfim, proporcionando para ela outras formas de desenhar e de se expressar. Fique tranquila, o que importa é que o desenho para ela seja uma brincadeira, um momento em que ela possa expressar-se e experimentar com alegria e liberdade.

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  15. Estou com dificuldades em distinguir o grafismo de um desenho para a faculdade, poderia me ajudar?

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    1. Sim. Mande o desenho e a sua dúvida para o e-mail: marga_barbosa@hotmail.com

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