O que significa fazer uma Festa Junina na escola?


Estamos no mês de junho e com ele, logicamente nos vemos envoltos em muitas festas juninas. Abraçadas nos calendários escolares desde o início do ano e por muitos anos, e que demandam dos educadores, das crianças e a sua comunidade um tremendo trabalho e preparação. Quem não gosta? Há os que esperam ardentemente por essa época e confesso que estou nessa lista. Contudo, não podemos passar por esse mês sem problematizar algumas questões tão latentes e que precisam e urgem de discussões e reflexões. Talvez precisássemos de um artigo mais demorado e acadêmico para isso, e é certo que não terei tempo para tanto, já que estamos no dito mês e não podemos deixar de apontar algumas tensões.
Primeira pergunta, a qual considero crucial: por que comemorar essa festa na escola? A próxima pergunta, tão crucial quanto a primeira: qual a nossa intenção em comemorar essa festa?
Por que comemorar essa festa? Ela é histórica e culturalmente importante, principalmente para o nosso país, trazida pelos portugueses, ela tem raízes pagãs que marcavam a passagem das estações, agradeciam colheitas, afastavam maus espíritos. com o tempo foi cristianizada pela Igreja Católica e atrelada aos três santos: Santo Antônio, São João e São Pedro, com o passar do tempo foi perdendo seu sentido religioso, algumas igrejas e comunidades abandonaram suas comemorações e em alguns lugares só se tem acesso a essas festas em escolas. Entretanto, basicamente ela é uma festa que retrata, ou deveria , nossa cultura, e como educadora acredito que é justamente esse o seu potencial dentro das escolas, logo nossa intenção em comemorar essa festa está justamente aí: tornar visível, pesquisar, celebrar e valorizar a nossa cultura. Acima de tudo! 
Caxambu, samba de roda, catira, pau-de-fitas, fandango, chimarrita, milonga, boi-de-mamão, samba, siriri, boi-à-serra, sarandi, palomita, maculelê, cavalo marinho, reisado, congo, cavalo piancó, torém, coco, coco de roda, cacuriá, tambor de crioula, cabloquinho, frevo, maracatu, carimbó, marambiré, lundu, marujada, xote, xaxado, forró, boi-bumbá, bumba-meu-boi… O Brasil se apresenta com todas as suas riquezas e fazeres, protagonismos e criações de seus povos, construindo significados e historias, dando voz a gente que ninguém vê, mas que fazem diferença em suas ruas, vilas, vilarejos, comunidades, que passam de geração em geração. Onde está a escola nisso tudo? Qual a nossa escolha diante disso? 
Preferimos músicas que estão na mídia. "Já sabem cantar…" "Ahh mas as crianças gostam “- dizem uns. E o nosso papel enquanto educadores? Como repertoriamos nossos bebês, crianças e jovens? Como sabemos de suas historias e seus saberes e de suas comunidades? Escolhemos o country … fácil de dançar, uns passinhos e pronto! Lá estamos nós dando lugar e destaque a cultura americana, num momento e espaço destinados a comemorar a nossa. Ou mais que de repente, alguém ressuscita uma música de festa junina infantil, sem qualidade nenhuma para os pequenos, afinal é muito difícil para as crianças, vamos fazer uns gestos (muitas vezes já marcados na própria música escolhida) e pronto! Lá vamos nós mostrar a todos que não acreditamos na potência de nossas crianças.
E os ensaios? Quanta dor de cabeça…as crianças não querem dançar, quando consegue ensaiar é até a exaustão. O pior de tudo é quando não faz sentido nenhum para elas, não promove aprendizados e são vazias de significado. Passada a festa ninguém quer ver aquilo de novo. Nem as crianças e nem os educadores. Ufa!! Acabou!!
Particularmente em São Paulo, o cuidado que devemos ter em pensar o quanto reforçamos preconceitos e estereótipos em relação ao povo do campo, afinal é tão engraçado, não é mesmo? O casamento abobalhado e cômico, da moça que engravida e que tem que casar por isso…As roupas remendadas e coloridas, a maquiagem exagerada de quem não faz ideia como usar nos “padrões" da moda, as costeletas e bigodes, as manchas no rosto…A falta do dente…Não é engraçado, é sofrimento…de um povo que planta e passa fome…que a vida no campo não é uma eterna festa e que há questões como a reforma agrária, por exemplo, que precisam ser ditas. Que não há motivos para deboche, graça e escárnio em ser campesino, ser contrário do ser urbano, erroneamente atrelado a ideia do progresso.
Algo precisa mudar.
Por isso muitas escolas tem mudado até o nome das festas para Festa da Cultura Popular, por exemplo, para marcar de fato qual a sua intenção: valorizar, dar voz, celebrar, pesquisar e reconhecer a tamanha diversidade e riqueza de nossa cultura e, que nós enquanto Educação temos esse papel fundamental! Criar significados junto aos bebês, crianças e jovens, ouví-los, escutá-los, dar espaço para que decidam, preparem, criem, pesquisem e conheçam dentro deste lugar nossa história e nossas lutas enquanto povo. Para que haja alegria em prepará-la coletivamente, e que seja rememorada no decorrer do ano, como algo inteiro e significativo, que propicie encontros, afetos, alegrias, reflexões e aprendizados e assim a escola se constitua como um lugar de produção de conhecimentos, de todos os conhecimentos!! Dessa forma, não dá mais para fazer mais do mesmo, ou ainda dizer: sempre foi assim. Precisamos conversar, reagir, revolucionar, sacudir as já empoeiradas práticas pedagógicas nessas festas, e nos fazermos de novo as perguntas que nos mobiliza, em prol de uma aprendizagem que seja significativa para todos.

Margarida de Sousa Barbosa

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